Tropas do governo sírio reforçam seu contingente na região, onde fazem ataques ocasionais.
Sob o ruído constante de aviões dos Estados Unidos transportando prisioneiros do Estado Islâmico (EI), as forças curdas constroem trincheiras e posicionam mais soldados nas linhas de defesa ao redor da cidade de Hasakah, no nordeste da Síria. Ao mesmo tempo, as tropas do governo sírio reforçam seu contingente na região, onde fazem ataques ocasionais.
Enquanto a reportagem da Folha estava na posição militar das Forças Democráticas Sírias (SDF, na sigla em inglês) na área, um drone atingiu um checkpoint a dois quilômetros de lá e, após o barulho da explosão, ouviu-se uma saraivada de disparos contra o veículo aéreo não tripulado. Dois soldados ficaram feridos.
Tudo isso ocorre enquanto, supostamente, está em vigor um cessar-fogo entre o Exército sírio e as SDF, as forças lideradas pelos curdos.
“Estamos construindo trincheiras como linhas de defesa para repelir os ataques terroristas. Você viu, acabou de acontecer um ataque com drone neste checkpoint aqui na nossa frente”, disse Abjar Dawud, porta-voz das SDF.
“Estamos trazendo reforços para as linhas de frente próximas das estradas entre Qamishli e Hasakah, preparando nossa defesa. No outro lado, estamos vendo que eles estão trazendo armamentos pesados e soldados, mesmo com o cessar-fogo em vigor.”
Ambos os lados têm denunciado inúmeras violações à trégua, prevista para ficar em vigor até 8 de fevereiro. O Ministério da Defesa da Síria acusou as SDF de lançar drones contra civis na região de Jazira, onde fica Kobani, e próximo de Aleppo.
As SDF, por sua vez, acusam Damasco de vários ataques contra civis e integrantes das forças curdas em Hasakah e na região de Jazira.
A cidade de Kobani, símbolo da vitória dos curdos sobre o EI, em 2019, está sitiada por forças do governo sírio. Civis não têm acesso a água, comida, remédios e combustível há 11 dias.
Nesta terça-feira (27) o enviado especial dos EUA para a região, Tom Barrack, o ministro das Relações Exteriores da França, Jean-Noel Barrot, e seus contrapartes da Alemanha, Serap Guler, e do Reino Unido, Yvette Cooper, divulgaram um comunicado conjunto instando todos os lados a respeitarem o cessar-fogo.
No mesmo dia, o presidente Donald Trump conversou por telefone com o líder sírio, Ahmed al-Sharaa. O americano também teria abordado a necessidade de respeitar o cessar-fogo.
A grande preocupação dos EUA é o EI o Exército sírio assumiu controle de prisões que abrigam mais de 7.000 integrantes da facção e que eram, antes, comandadas pelas SDF. No processo, centenas de extremistas escaparam.
Diante da instabilidade, os EUA pressionaram pela prorrogação do cessar-fogo, assinado inicialmente em 18 de janeiro, para viabilizar a transferência de milhares de extremistas por forças americanas para prisões no Iraque processo que ainda está em curso.
Em meio a pressões internacionais, estava em andamento na noite desta terça uma reunião entre Sharaa, Mazloum Abdi, o comandante das SDF, e Ilham Ahmad, co-presidente da região autônoma curda, para discutir a integração ao país de áreas controladas pela minoria.
As SDF, uma aliança formada em 2015 entre forças curdas e países como os EUA, com participação de árabes, lutaram durante anos contra o EI na Síria, até derrotar os extremistas em 2019.
Mas, no final de 2024, as forças rebeldes de Sharaa depuseram o então ditador sírio, Bashar al-Assad, e prometeram unir o país sob o controle do novo governo, incluindo as áreas administradas pelas SDF, que controlavam cerca de um quarto do território sírio, onde mantinham um governo autônomo.
Desde o início de janeiro, forças governamentais sírias tomaram áreas de maioria árabe antes comandadas pelas SDF. As tropas capturaram Raqqa e Deir Ezzor, assumindo controle sobre campos de petróleo, hidrelétricas e prisões com milhares de combatentes do EI.
Há pessimismo entre militares e autoridades civis na região autônoma curda na Síria. A população também está insegura centenas de deslocados internos chegaram nas últimas duas semanas e ocupam escolas em Qamishli e nos arredores. Nas estradas, há dezenas de carros com pessoas em fuga de áreas já ocupadas pelo Exército sírio.
As exigências de integração do governo Sharaa são vistas pelos curdos como uma capitulação. Uma delas é a incorporação dos soldados curdos pelas Forças Armadas da Síria.
“Há inúmeros integrantes de facções extremistas nas Forças Armadas sírias. Não confiamos em ter essas pessoas em nossas áreas. Eles cometeram crimes contra os curdos”, disse à Folha Barzan Maskou, assessor de relações internacionais das SDF.
Sharaa integrou ao Exército sírio combatentes de facções extremistas que lutaram contra os curdos, que temem vingança.
As SDF querem um período de transição em que apenas forças curdas atuariam dentro do território curdo, até que se construa confiança. “Não queremos ser um Estado dentro do Estado, mas queremos manter certa autonomia em nossa administração. Não queremos ser totalmente submetidos a um regime centralizado, que irá mandar em nossa polícia, educação, saúde e serviços públicos”, diz Maskou.
Há diferenças importantes entre a sociedade curda, laica, e o governo de Sharaa, conservador religioso.
O novo líder, que derrubou Assad em dezembro de 2024, foi integrante da Al Qaeda até 2016. Ao assumir o governo sírio, integrava o Hayat Tahrir al-Sham, facção considerada uma organização terrorista por muitos países, que removeram sanções após a troca de governo.
Ao assumir, Sharaa prometeu fazer um governo inclusivo, respeitando minorias. Mas, no ano passado, mais de 1.300 alauítas morreram na região de Tartus em choques com forças do governo e milícias sunitas afiliadas. Em abril, centenas de drusos da região de Sweida foram mortos em conflitos semelhantes.
Os EUA, que apoiaram as SDF como principais aliados na derrota do EI, aproximaram-se de Sharaa e não se opuseram à ofensiva sobre os curdos. Eles instam as SDF a aceitarem a proposta do novo líder de integração ao governo sírio.
No entanto, crescem as pressões de certas alas políticas para proteção dos curdos. O senador republicano Lindsey Graham postou nesta terça que irá apresentar um projeto de lei chamado “Salve os Curdos”, que prevê sanções contra governos ou grupos envolvidos em agressões contra a minoria.
“Os curdos foram nossos maiores aliados para derrotar o califado do EI. Seria um desastre para a reputação da América e para os nossos interesses de segurança nacional abandonar os curdos”, disse.
Fonte: Portal Correio



