Equipes do Fantástico refizeram o trajeto do resgate até o ponto do acidente que matou o cantor Rick e outras quatro pessoas. Imagens exclusivas revelam a busca por indícios que ajudem a desvendar os últimos momentos do voo.
Cada peça espalhada pela mata pode ajudar a esclarecer uma pergunta ainda sem resposta: como um voo de menos de uma hora terminou com a morte de cinco pessoas na Serra Catarinense? Novas imagens mostram os destroços retorcidos da aeronave na mata fechada.
Com o auxílio de drones e de um scanner tridimensional, a Polícia Científica reconstrói a cena da colisão do Bell 430, prefixo PP-MGR. É como se os peritos pudessem voltar virtualmente ao local da tragédia, com os vestígios preservados.
“Nós vamos conseguir testar e simular, por exemplo, como se deu a entrada da aeronave na área de mata fechada. Com as medidas da aeronave, diâmetro de rotor, comprimento de fuselagem a gente consegue fazer uma análise muito detalhada e chegar a conclusões importantes”, explicou o perito criminal Fernando Henrique Ponzetti.
As imagens revelam a violência do impacto. Dos mais de quinze metros de comprimento do helicóptero, sobraram pouco mais de três. Cada fragmento agora pode ajudar a reconstruir os últimos momentos do voo.
“A aeronave após atingir ali o terreno, acabou se fragmentando. Nesse cenário, claro, pela posição até que os destroços foram encontrados, a chance de encontrar sobreviventes era muito baixa”, destacou Ponzetti.
Para entender a dimensão dessa tragédia, é preciso subir a serra. São duas horas e meia de caminhada por um terreno íngreme, com mata fechada e a 1.700 metros de altitude. Dois dias depois do acidente aéreo, na quinta-feira, a equipe refez o caminho até o ponto da colisão.
Um tenente dos bombeiros descreveu os desafios do terreno enfrentados pelas equipes de busca: ” No decorrer das buscas, eles encontraram o terreno acidentado, relevo íngreme, com declividade, aclividade, muita lama, banhados, muita pedra no caminho”.
Como as equipes de resgate chegaram a este trecho isolado da serra e quais pistas levaram a força-tarefa até o local da queda?
“Nós recebemos a informação de uma possível aeronave desaparecida entre Urubici e São Joaquim às 16h25”, relatou o comandante dos bombeiros.
O comandante explicou a complexidade do início dos trabalhos: “Até aquele momento nós não tínhamos certeza se tivemos um pouso forçado; se a aeronave desviou a rota. Era tudo muito incerto. E por todo esse cenário, de visibilidade reduzida, a dificuldade foi muito grande. Começamos a mobilização já de noite. E já no clarear do dia seguinte, nós estávamos com uma força muito maior”.
Na terça-feira, as buscas se concentraram em dois pontos-chave: o último registro do celular, em Vacas Gordas, no interior de Urubici; e o último sinal emitido pelo helicóptero antes de desaparecer, na localidade de Santa Bárbara, uma das áreas mais altas da serra, a cerca de 50 km de São Joaquim.
Drones com câmeras térmicas ajudaram a vasculhar a vegetação. A força-tarefa mobilizou bombeiros, militares, agentes da Defesa Civil e voluntários por mais de 20 horas.
Às 11h32, câmeras de segurança de fazendas registraram o som da colisão. No local da queda, os socorristas buscavam por sinais de vida: “Alguém com vida? Ô, tá com vida?”. Ao se aproximar, um resgatista afirmou: “Chegamos nos destroços aqui, ó. Muito difícil o acesso”.
O comandante dos bombeiros confirmou o desfecho das buscas: “Equipes que já estavam próximas àquele ponto então conseguiram acessar e confirmar, infelizmente, as cinco vítimas fatais”.
A bordo da aeronave estavam:
- O cantor Rick, da dupla sertaneja Rick e Renner;
- O empresário Bruno Avelar;
- O produtor de vídeos Paulo Soares;
- O piloto Antônio Roberto Nóbrega de Araújo;
- E o copiloto Leopoldo Barros Teixeira.
Fabricado em 2001, o Bell 430 tinha capacidade para até sete passageiros. Segundo a ANAC, a aeronave estava com a documentação em dia e possuía autorização para voos noturnos e por instrumentos.
O engenheiro aeronáutico e professor da Poli-USP, Jorge Eduardo Leal Medeiros, analisou as condições do voo: “Era um helicóptero de muito boa qualidade, tinha duas turbinas a jato etc. Então não parece ter sido falha mecânica. Você numa região de Serra, a visibilidade pode ser ruim, mas você pode ter ventos também”.
Especialistas explicam que pode ter ocorrido o fenômeno chamado de downdraft — em português, corrente descendente —, que acontece quando o ar desce pela encosta da montanha e pode empurrar a aeronave para baixo. “O importante é saber: Esse piloto sabia exatamente onde ele estava? Ele tinha o GPS que dava a posição dele?”, questionou Medeiros.
Na cabine estavam dois pilotos habilitados para operar o Bell 430. O comandante Antônio Roberto Nóbrega de Araújo tinha quase seis mil horas de voo, e atuava ao lado do copiloto Leopoldo Barros Teixeira. Horas antes da decolagem, uma troca de mensagens mostra que as condições do tempo preocupavam a tripulação.
Às 6h59 da manhã, o copiloto Leopoldo Teixeira enviou uma mensagem para Juliano Luft, operador do aeroporto em Lages, onde a aeronave faria uma parada para reabastecimento.
Juliano Luft detalhou o contato: “Aí às 7:52 eu mandei uma foto do tempo em Lages, que estava em condições boas visuais, né”. Juliano acrescentou na mensagem enviada à tripulação: “Mais tarde chove. Quanto antes vir, melhor”.
Minutos depois, o próprio comandante entrou em contato. “Ele me ligou falando que estava ciente que o tempo estava ruim onde eles queriam ir, no destino, e perguntando se eu podia mandar umas fotos e um vídeo aqui das condições do tempo em Lages”.
Naquela manhã, a Defesa Civil já havia emitido um alerta de tempestade severa para a região de São Joaquim, com previsão de granizo, vendaval e raios. “Eles sabiam dessa frente fria, de alerta vermelho, que estava se aproximando. Inclusive já tinha chegado em Criciúma, né”.
Pouco antes da decolagem, o empresário Bruno Avelar enviou a um amigo uma foto gravada na cabine, na qual o comandante Antônio Nóbrega de Araújo aparece diante do painel de controle. Às 11h, o Bell 430 decolou de Porto Belo, no litoral catarinense, com destino a São Joaquim.
Juliano Luft relatou que tentou novo contato após a decolagem: “Às 11:17 eu mandei uma mensagem pedindo se eles já tinham o estimado, se eles viriam a Lages abastecer. Aí ele já não me respondeu mais e não recebeu a mensagem”.
Momentos antes da decolagem, o produtor de vídeos Paulo Soares, uma das vítimas do acidente, fez uma foto do helicóptero no heliponto em Porto Belo e, posteriormente, publicou imagens da viagem nas redes sociais durante o voo.
Moradores da região filmaram a passagem da aeronave sem saber da tragédia iminente. “Ele saiu daquele morro que fica aqui pra trás, então ele já saiu meio que na altura mais baixo do que o normal’, diz o o morador Rodrigo Afonso.
A menos de três quilômetros do local da queda, o artesão Israel Rosa também gravou a passagem do helicóptero: “Não percebi nada de pane. Não tinha fumaça, o barulho constante, normal, a velocidade também.”
Analisando a cena, o professor Jorge Eduardo Leal Medeiros destacou a hipótese de falha humana ligada ao mau tempo: “O que pode ter acontecido é falha humana, causada por condições meteorológicas ruins. Uma especulação muito preliminar é que o helicóptero estava com a cauda pra cima. Então, não me parece que ele tenha tentado pousar, absolutamente. A impressão que dá é que ele bateu voando, vamos dizer”.
A proprietária do helicóptero, JTA Empreendimentos, iniciou estudos técnicos para a retirada dos destroços. Os investigadores agora buscam respostas na caixa-preta do Bell 430, enquanto a Polícia Científica tenta reconstruir passo a passo a dinâmica do acidente.
O perito criminal Fernando Henrique Ponzetti comentou o andamento dos exames: “O nosso compromisso aqui é com a qualidade do resultado. É isso que a gente deve às famílias das cinco pessoas que foram encontradas a bordo”.
Um tenente dos bombeiros desabafou sobre o impacto emocional do resgate: “A gente tá aqui, a gente tenta que o sentimento não tome conta da gente. Esse sentimento, né, de ver outra pessoa que perdeu a vida. A gente tem que ser frio na hora, né? Mas quando a gente visualiza a dimensão e como foi, não tem como não sentir um pouco.”
G1



