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O Vazio da Sexta-Feira Santa: O Silêncio Das Encenações em Ingá

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Por Rennan Oliveira

A Sexta-feira Santa sempre teve um rito sagrado no Ingá que ia além das orações. Era o dia em que o suor do ensaio se transformava em arte, e o Ginásio Carlão deixava de ser apenas concreto para virar o palco da maior história da humanidade. Mas, o que vemos hoje? Um silêncio ensurdecedor que deveria nos envergonhar.

É doloroso admitir que a encenação da Paixão de Cristo — uma tradição de décadas, mantida com garra por tantas gerações — está morrendo por um motivo banal: a falta de vontade. Não falta recurso, falta alma. Não falta espaço, falta disposição. O espetáculo está chegando ao fim porque a sociedade decidiu que o esforço da arte não cabe mais na pressa dos dias de hoje.

Onde estão os jovens que antes brigavam por um papel, que passavam noites decorando falas e preparando cenários? Hoje, parece que a cultura foi trocada pelo entretenimento vazio de 15 segundos numa tela de celular. É uma geração que assiste a tudo, mas não quer construir nada. O palco, que deveria estar vibrando com o talento da nossa gente, agora é um monumento ao esquecimento.

Assistir ao fim de uma nação artística por mera apatia é ver a identidade do Ingá ser apagada. A procissão passa, o povo se recolhe, mas o “depois” — aquele momento de reunião, de ver o filho, o vizinho e o amigo encenando — virou uma memória que a poeira está começando a cobrir.

É preciso que cada pai, cada mãe e, principalmente, cada jovem reflita: que tipo de legado estamos deixando? Uma cidade que abandona sua cultura é uma cidade que perde a voz. A falta que a Paixão de Cristo faz hoje não é apenas religiosa; é a falta do brilho nos olhos, do orgulho de ser ingaense e de fazer parte de algo maior que nós mesmos.

O Ginásio Carlão continua lá, as luzes podem ser acesas a qualquer momento, mas quem terá a coragem de ocupá-lo de novo? A tradição pede socorro, e o nosso desinteresse é o cravo que a fere. Até quando vamos deixar nossa história morrer por pura preguiça de vivê-la?

 

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