Um terço das mulheres já sofreu ou presenciou assédio no transporte, diz pesquisa da CPTM

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) — Uma pesquisa encomendada pela CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) apontou que cerca de um terço das mulheres entrevistadas (32,1%) já sofreram algum tipo de importunação sexual ou conhecem alguém que já passou por isso no transporte público (seja trem, metrô ou ônibus). No ano passado, o percentual registrado foi de 47,6%.

Realizada pelo quarto ano, a pesquisa Voz Feminina ouviu mais de 1.300 passageiras, entre os dias 6 e 7 de maio — todas as entrevistadoras eram mulheres.

O público feminino corresponde à maioria dos passageiros transportados diariamente pela companhia: 55,6%.

O objetivo da pesquisa é traçar um perfil deste público, com perguntas sobre a frequência de utilização dos trens e principais preocupações em relação ao serviço de transporte sobre trilhos, por exemplo.

Questões sobre importunação sexual e o conhecimento das passageiras sobre as campanhas de combate a esse comportamento também foram abordadas como forma de compreender o alcance das informações.

Segundo a CPTM, uma das principais medidas de combate ao assédio começa com o treinamento de funcionários — homens e mulheres — , para atender as passageiras que se queixarem de problemas nas estações e trens.

Na pesquisa, apenas 28% das entrevistadas disseram conhecer o Espaço Acolher, serviço implantado desde o ano passado em 41 estações para acolhimento de mulheres que sofreram importunação sexual nos trens.

Os dados da pesquisa mostram que que quando houve importunação dentro de trens, apenas 11% das mulheres entrevistadas declararam que fizeram denúncias. Já quando ela ocorreu na estação, esse percentual subiu para 25%.

Entre março de 2020 e abril deste ano, mês anterior à realização da pesquisa, foram realizados 63 atendimentos com 58 prisões e 62 registros de boletim de ocorrência nas estruturas da CPTM, segundo a companhia. Apesar do número ainda baixo de passageiras que conhecem o serviço de acolhimento, 70% das entrevistadas disseram conhecer as campanhas de combate ao crime.

A supervisora geral de estações da CPTM, Gislaine Pereira de Souza, afirma que, apesar de muitas mulheres ainda terem vergonha da situação, ela nota que as vítimas têm se mostrado cada vez mais seguras para denunciar.

“Também fazemos uma campanha de incentivo ao testemunho, que é importante, porque muitas pessoas veem a situação, mas não acompanham a vítima. Quando há uma testemunha, elas se sentem mais acolhidas”, destaca.

Gislaine conta que é comum que tanto vítima quanto testemunha estejam em direção ao trabalho no momento do crime, o que faz com que algumas desistam de denunciar. Como forma de estimular a denúncia, a central da CPTM encaminha uma declaração ao ao departamento de recursos humanos das empresas das testemunhas envolvidas, para que elas possam acompanhar as vítimas à delegacia, sem perder o dia de trabalho.

PANDEMIA ALTERA PERFIL DAS USUÁRIAS DO TRANSPORTE

De acordo com a pesquisa, a mudança na faixa etária das passageiras foi a principal alteração desta edição, em comparação com as anteriores. Mulheres mais jovens, com até 25 anos, ficaram mais em casa por causa da restrição de aulas presenciais em escolas e universidades, o que se refletiu diretamente na demanda.

A pesquisa também mostrou que mulheres passaram a trabalhar em casa ou reduziu o número de dias de trabalho presencial. Além disso, o fechamento de postos de trabalho também alterou esse indicador.

Menos de um terço (28,4%) das mulheres que utilizam a CPTM têm entre 25 e 34 anos –no ano passado, esse percentual era de 29,1%. As passageiras entre 18 e 24 anos são agora 26,8% do total, contra 33,7% do ano anterior. Já as passageiras entre 45 e 60 anos dispararam de 11,2% para 17,4%.

A parcela de mulheres entre 35 e 44 anos é de atuais 24,3%, as com menos de 18 anos recuaram de 1,7%, enquanto as que possuem mais de 60 anos representam 1,4% do total de passageiras da companhia.

O percentual de mulheres que utilizam a CPTM de 6 a 7 vezes por semana caiu de 45,3% no ano passado para 38,3% em 2021. Por outro lado, a presença feminina nos trens avançou de 12% para 19,2% quando isso ocorre até três vezes por semana.

“A demanda de passageiros caiu consideravelmente em 2020 por causa da pandemia, e a pesquisa mostra essa grande mudança na rotina das mulheres neste período”, explica o presidente da CPTM, Pedro Moro.

O levantamento também mostrou que 65,1% das passageiras trabalham com carteira assinada e 25,5% no trabalho informal. Além disso, mais de 64 % das mulheres são as responsáveis financeiras pela casa (54,7% as próprias entrevistadas e 9,8% outra mulher).

 

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