sábado, março 2, 2024
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Onde surgiu a sífilis? DNA achado no Brasil pode ajudar na resposta

Raramente há informações históricas tão precisas sobre a origem de uma doença infecciosa como no caso da sífilis: em 1493, durante o cerco da cidade de Nápoles pelas tropas francesas.

A partir daí, ela se espalhou rapidamente pela Europa e pela Ásia, causando uma das epidemias mais devastadoras para a humanidade durante vários séculos, que terminou quando, graças à penicilina, ela pôde ser tratada adequadamente no século XX.

A coincidência no tempo com o retorno da primeira expedição de Colombo às Américas e algumas crônicas indiretas levaram à hipótese de que a origem dessa doença tenha ocorrido no continente americano, e levada para a Europa nos navios de Colombo.
Uma pesquisa publicada recentemente na Nature, baseada em esqueletos de um sítio arqueológico milenar localizado no litoral do Sul do Brasil pode esclarecer essa controvérsia.

Genomas antigos e filogenias modernas

Juntamente com pesquisadores das universidades de Zurique, Basiléia, Viena, ETH Zurique, Autônoma de Barcelona e também da Universidade de São Paulo (USP), apresentamos a análise de um genoma da bactéria Treponema pallidum obtido de amostras de 2.000 anos de idade de um túmulo indígena (sambaqui) do sítio arqueológico Jabuticabeira II, localizado na região do município de Laguna, no litoral catarinense.

Esse genoma, de alta qualidade para um genoma tão antigo, agrupa-se com os genomas modernos do T. pallidum endemicum (TEN), a linhagem causadora da bejel, uma infecção crônica nas mucosas atualmente restrita a áreas quentes e áridas do planeta, e não descrita anteriormente nas Américas.

Essa linhagem, assim como a T. pallidum pertenue (TPE), que causa outra infecção treponêmica tropical chamada bouba, está intimamente relacionada à linhagem causadora da sífilis, a T. pallidum pallidum (TPA).

O aparecimento repentino da sífilis no final do século XV levou à proposta de sua origem americana, conhecida como a hipótese colombiana. Mas essa não foi a única proposta.

Alternativas mais populares são a hipótese pré-colombiana, segundo a qual todas as treponematoses acompanham a humanidade desde suas origens, com diferentes manifestações à medida que se espalham por diferentes regiões.

Há também a hipótese unitária, uma leve variante da hipótese pré-colombiana, segundo a qual o surgimento das diferentes treponematoses corresponde a adaptações da mesma bactéria a diferentes condições ecológicas.

Até agora, o problema com essas hipóteses tem sido a falta de dados concretos para refutá-las ou validá-las, já que as lesões cutâneas típicas não deixam vestígios após a decomposição dos cadáveres e as lesões ósseas são comuns a diferentes infecções. Isso levou a uma busca por vestígios biológicos da bactéria em restos mortais antigos, usando as mesmas técnicas utilizadas para os restos mortais de Neandertais

Embora ainda não tenha sido possível recuperar as bactérias, graças às mesmas técnicas de sequenciamento aplicadas aos restos mortais de Neandertais ou Denisovanos, alguns genomas completos de T. pallidum foram obtidos.

A maioria desses genomas vem do centro e do norte da Europa e alguns do México, mas sua datação não nos permite descartar a possibilidade de que eles datem de depois do retorno de Colombo. Esses genomas se agrupam com as linhagens TPA e TPE, deixando em aberto a questão da origem da sífilis.

O novo genoma amplia o alcance geográfico e temporal da distribuição do T. pallidum para as Américas nos tempos pré-colombianos e também antes das expedições vikings que chegaram às costas da América do Norte. Nossa análise o coloca claramente na linhagem TEN. De fato, sua curta distância genética dos poucos genomas disponíveis dessa linhagem é surpreendente, um detalhe que confirma sua atribuição a essa linhagem.

A procedência desses restos mortais também é surpreendente. Atualmente, o bejel é encontrado em regiões quentes e áridas, climática e ecologicamente muito diferentes das margens atlânticas do Brasil subtropical.

Colombo teve um papel importante na disseminação da sífilis?

O que o novo genoma nos diz sobre a origem da sífilis? Pouco e muito, ao mesmo tempo. Sua participação no TEN implica que os treponemas estavam presentes nas Américas antes da chegada de Colombo, mas não que um deles tenha necessariamente causado a sífilis.

Todas as hipóteses acima recebem algum reforço empírico. A nova datação atrasa um pouco a origem do TPA para cerca de 1.000 a.C., mas sua precisão pode melhorar à medida que novos genomas antigos forem incorporados às análises.

O estudo dos genomas dessa bactéria revelou a grande plasticidade do T. pallidum para trocar genes. Em particular, a linhagem TPA recebeu várias contribuições de outras linhagens, TPE e TEN.

É possível que um desses casos de transferência horizontal de genes tenha incorporado a uma linhagem de treponema a capacidade de ser mais facilmente transmitida sexualmente e causar sintomas anteriormente desconhecidos. Será que isso aconteceu na Europa após o retorno de Colombo? Essa é uma possibilidade fascinante que queremos explorar mais a fundo.

*Texto do pesquisador Fernando González Candelas, publicado originalmente no site de divulgação científica The Conversation.

Metrópoles

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