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Levantamento mostra, no entanto, que as sempre nocivas fake news podem ter viés positivo sobre a imagem dos protagonistas. Bolsonaro, neste caso, é o líder

A proliferação de notícias falsas na internet preocupa 83% dos brasileiros, como mostra reportagem de VEJA que chega às bancas nesta sexta-feira, e também autoridades do país, que se movem para aplacar esse mal no ano em que o Brasil terá a eleição presidencial mais imprevisível em três décadas. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) instalou uma força-tarefa para combater as chamadas fake news e a Polícia Federal pretende ouvir de especialistas do FBI detalhes da experiência americana na eleição de 2016. Naquele ano, supostamente alimentada por agentes do serviço secreto da Rússia, a indústria de lorotas online mirou a candidata democrata à Casa Branca, Hillary Clinton, e favoreceu a vitória do presidente americano, o republicano Donald Trump.

Levantamento feito por VEJA mostra quais são, no campo político brasileiro, os alvos preferenciais de notícias falsas. A pesquisa examinou 12 sites conhecidos por divulgarem fake news e analisou 534 exemplares de lorotas online. A conclusão é a de que o campeão das manchetes mentirosas é o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), seguido pelo presidente Michel Temer (PMDB) e o juiz federal Sergio Moro, responsável pelos processos da Operação Lava Jato em Curitiba. Lula foi o protagonista de 116 notícias falsas, Temer, de 77, e Moro, de 59.

Entre as mentiras envolvendo Lula, destacam-se, entre muitas outras manchetes mirabolantes, a de que ele teria deixado uma missa após ter sido chamado de “bandido” por um tal “padre José” e a de que, condenado por Sergio Moro, teria declarado que vai voltar à Presidência da República “mesmo que passe por cima de Moro”. Já o magistrado, conforme as fake news, teria admitido que não havia provas contra Lula e o condenou com base apenas em sua “convicção”. Sobre Temer, os boatos frequentemente tratam de seu estado de saúde. Algumas das notícias falsas chegam a afirmar que o presidente, que passou por três internações em um intervalo de três meses, está “entre a vida e a morte”.

Completam o ranking dos dez alvos mais recorrentes de boatos na internet o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes (24 notícias falsas), o senador Aécio Neves (PSDB-MG) (20 notícias falsas), a ex-presidente Dilma Rousseff (PT) (19 notícias falsas), o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ) (18 notícias falsas), a presidente do STF, ministra Cármen Lúcia (17 notícias falsas), e o ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral (PMDB) e o deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) (ambos com 11 notícias falsas). (veja quadro ao final do texto)

O levantamento de VEJA aponta também que, embora sempre nocivas, as lorotas da internet não são, obrigatoriamente, negativas à imagem de seus alvos, como nos casos da missa de Lula e da “convicção” de Moro. Algumas têm viés positivo e outras são neutras.

Sob essa ótica, a análise constatou que Jair Bolsonaro, um dos pré-candidatos à Presidência nas eleições de outubro, é o maior beneficiado por notícias inventadas. Das 18 notícias inverídicas envolvendo o nome dele, nada menos que 12, ou 67%, foram criadas para enaltecê-lo e apenas quatro (22%) são negativas ao deputado. “Bolsonaro afirma que ‘carro não é patrimônio’ e quer o fim do IPVA”, diz um boato, buscando, evidentemente, atrair ao presidenciável a simpatia dos muitos que não veriam problema se o imposto fosse, de fato, extinto. A mentira foi compartilhada 746 vezes por usuários do Facebook.

Embora 53% das notícias falsas que o citem sejam negativas, Sergio Moro é o segundo mais incensado pelos criadores de fake news. Entre as 59 inverdades publicadas sobre o juiz da Lava Jato, 22, ou seja, 37%, são engrandecedoras. Faz parte desta conta a estória, um tanto estapafúrdia, de que o magistrado ficou debruçado durante 40 minutos sobre uma Bíblia depois de julgar e condenar Lula. Compartilhada 20.801 vezes no Facebook, a cascata partiu de uma foto em que Moro parece estar procurando uma tomada sob uma bancada e é obra do site Sociedade Oculta, que chegou a ter 12 milhões de acessos mensais com a publicação de notícias falsas.

Sergio Moro sobre "Bíblia" - Notícia falsa

As lorotas sobre Jean Wyllys e Gilmar Mendes, por outro lado, raramente são positivas às imagens do deputado e do ministro do STF. Todas as onze fake news sobre Wyllys analisadas no levantamento de VEJA procuram difamá-lo, atribuindo a ele fictícias propostas legislativas, tais como a retirada de trechos da Bíblia “considerados homofóbicos”, a legalização da traição no casamento e a “descriminalização” da pedofilia. Jean Wyllys costuma publicar desmentidos sempre que atacado por notícias falsas.

Já o polêmico Gilmar protagoniza 23 notícias falsas desabonadoras a si, número correspondente a 96% do total de 24 lorotas publicadas sobre ele – somente uma das mentiras, segundo a qual ele havia determinado que o Big Brother Brasilfosse retirado do ar, foi considerada neutra. As duas mais populares, que somam 24.255 compartilhamentos no Facebook, afirmam que juízes federais pediram a saída do ministro do STF e que o Ministério Público Federal (MPF) obteve provas que podem “derrubar” Gilmar, que estaria “com os dias contados”.

Desde janeiro de 2017, VEJA conta com o blog Me Engana que Eu Posto, especializado em desmentir notícias falsas. O leitor pode colaborar no combate às manchetes mentirosas enviando sugestões via WhatsApp ao número (11) 9 9967-9374.

*Foram consideradas as 4591 postagens campeãs de compartilhamento entre cerca de 12 000 publicações das páginas “Apoiamos a Operação Lava Jato – Juiz Sergio Moro”, “Bruno Gagliasso Amor e Fé”, “Click Política”, “Diário do Brasil”, “Operação Militar”, “Pensa Brasil”, “Pensa Brasil 2”, “Platão Brasil”, “Por um Brasil Melhor”, “Mexeu com o General Mourão, Mexeu com Toda Nação”, “Notícias Brasil On-line”, “Você Precisa Saber” (Arte/VEJA)

 

Com reportagem de Guilherme Venaglia, Ione Aguiar, Marina Rappa e Ricardo Helcias

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